HISTÓRIA DA RUDLOFF

O sistema Rudloff foi o primeiro processo genuinamente brasileiro de protensão de estruturas, desenvolvido pelo eng. José Ernesto Rudloff Manns, em época que o protendido começava a ser usado no Brasil, com poucas obras executadas, por tecnologia estrangeira.

Rudloff, engenheiro civil e mecânico, graduado em 1943 na Universidad de Chile, em Santiago, iniciou sua atuação profissional no Chile, onde chegou a dirigir obras de grande porte, até resolver radicar-se no Brasil, em São Paulo, em 1952. Aqui, iniciou suas atividades com a construção de pontes, para uma empreiteira local. Não era especialista em concreto protendido, porém o primeiro contato, no Brasil, com esta técnica, entusiasmou-o de tal forma, que em outubro de 1953 resolveu começar a dedicar-se a ela, a qual parecia-lhe ter futuro promissor. Além disso, o assunto era muito ligado à engenharia mecânica, sua predileção. Usando-a como sua principal ferramenta para o desenvolvimento de seus equipamentos, aliada à sua criatividade e estudos aprofundados de toda a técnica envolvida no processo, Rudloff iniciou assim o desenvolvimento de elementos que chegariam a suas criações de grande sucesso na protensão de estruturas.

Enquanto vários sistemas de protensão eram inventados, inclusive alguns no Brasil, e a grande maioria não passava da etapa inicial de realização da idéia, Rudloff investiu em uma série de experiências, para conseguir desenvolver equipamentos ideais ao processo. Iniciou-as em 1954, com a meta de uma unidade de ancoragem de pequena capacidade, com a possibilidade de aumentar seu número gradativamente, formando cabos mais possantes. No mesmo ano, concluiu, através das experiências, que a fixação de fios Ø5mm, os únicos existentes na época para obras de protensão, deveria ser feita por cunhas planas para ancorar 2 arames por vez, mais baratas e mais fáceis de estampar. O maior problema estava na peça que recebia o esforço da cunha: uma chapa metálica em forma de bainha, soldada dentro de uma pequena placa repartidora. O conjunto parecia tão simples que chegou a ser julgado, por um engenheiro consultado, como não sendo passível de patente. Porém, era resultado de muita pesquisa e muitos sacrifícios. A peça só ficou definitivamente consagrada quando se chegou à possibilidade de uma fixação superior à resistência última dos dois fios tracionados simultaneamente, possibilitando que a ruptura dos arames se desse antes do deslizamento dentro da cunha. O pedido de patente foi então deferido, e daí para a frente, tudo foi questão de aperfeiçoamento, até se atingir uma ancoragem competitiva com as estrangeiras existentes.

A primeira viga protendida por Rudloff, em caráter experimental, ocorreu em dezembro de 1954, nas instalações da empresa SITUBOS, subsidiária da BRASILIT, a qual vendia vigas pré-moldadas para pontilhão. Tratava-se de uma viga armada com um cabo de 18Ø5mm, na época protendida com um só macaco para 2 fios, cujo ensaio oficial foi aprovado pelo eng. Péricles Fusco, na época engenheiro do IPT de São Paulo.

Demonstrada a validez do sistema, para aplicá-lo em obras e levar adiante o seu desenvolvimento, Rudloff necessitava da colaboração de alguém que concordasse em aplicá-lo. Com a abertura dos engs. Agenor Guerra Filho e Francisco Fernandes, da Construtora Mauá, a novidades tecnológicas, Rudloff foi favorecido com a primeira obra para aplicar o seu sistema de protensão do concreto. Tratava-se de viguetas de 5m, para as quais a solução encontrada foi a protensão com dois arames de Ø5mm. Para evitar a aderência ao concreto, os arames eram cobertos com betume e papel kraft. Com uma só forma de madeira, foram fabricadas aproximadamente 3000 vigas, as quais retrataram uma solução pioneira, em concorrência às então existentes em concreto armado. Na mesma época, a mesma construtora o incentivou a aplicar o concreto protendido na fábrica ELCLOR, no Alto da Serra (Paranapiacaba), para a qual Rudloff projetou uma solução em pórticos protendidos triarticulados, com cabos constituídos por 6 a 12Ø5mm. Assim começou uma parceria com a construtora Mauá,  que durou até 1963, e proporcionou ao eng. Rudloff suas primeiras instalações de escritório e anos muito gratificantes sob o aspecto do avanço tecnológico do sistema. A Rudloff Industrial Ltda., constituiu-se juridicamente em 04 de março de 1960, como indústria de materiais mecânicos para a construção civil, com especialização em concreto protendido.

Às viguetas protendidas, procedeu-se uma seqüência ininterrupta de obras. Cada nova obra era um desafio a Rudloff, que começava pelo desenvolvimento do projeto (na falta de escritórios especializados, os quais só apareceram em 1956), e tinha seqüência com o estudo de todos os elementos envolvidos no processos da protensão. Tudo o que hoje parece tão simples, foi criado com dificuldades, e sucessivas correções de erros nos protótipos. O sistema não ficou restrito à construtora Mauá, sua aplicação a terceiros superou em número as dela.

A primeira ponte protendida pelo sistema Rudloff foi a Ponte de Porto Ferrão sobre o Rio Tietê, para o DER, com 12 vãos de 24m, 6 vigas em cada vão, cuja construção ocorreu de junho de 1956 a dezembro de 1957. Após esta ponte, seguiram a Ponte de Ibitinga, sobre o Rio Tietê (11 vãos de 25,5m, 6 vigas protendidas por vão), o Viaduto de Ribeirão das Posses (6 vãos de 25m, com 6 vigas por vão), o Viaduto sobre a Estrada de Ferro Santos Jundiaí, em Santo André (13 vãos de 8 a 20m, com 12 vigas por vão), e uma seqüência de pontes que continua até os dias de hoje. Em meados de 1963, finalizou-se a construção da Ponte de Avaré, onde pela primeira vez, na América do Sul, foram suspendidas vigas com peso de 80 toneladas a 34 metros de altura.

A evolução do sistema culminou com a calota esférica ancorando os fios, em 1959, completamente original e não aplicada anteriormente em parte alguma. Iniciou-se, então, sua produção industrial, a qual perdurou até o fim da década de 60.

No início, o feixe de fios era coberto por betume não secante, embrulhado com várias camadas de fita de papel kraft e protegido então por uma camada de betume secante. A pressão hidrostática do concreto fresco apertava muito os arames, de forma que o atrito era relativamente alto e a protensão de cabos longos era feita com dificuldades. A partir de 1960, foi adotada a solução de um sistema de protensão idealizado pelo eng. Figueiredo Ferraz, baseado na aderência dos fios dentro da calda de injeção, o que evidentemente só funcionava dentro de uma bainha metálica. A solução foi considerada pouco econômica, se comparada à anterior, porém como era exigida pelos órgãos públicos, passou a ser adotada, a partir de 1960, elevando a qualidade das obras em concreto protendido.

No início da década de 60, foi lançado (Siderúrgica Belgo Mineira) o aço Ø7mm, que permitiu cabos 12Ø7mm com 40 toneladas, e alguns anos depois, o aço de Ø8mm, para cabos de 12Ø8mm com 55 toneladas de esforço útil. As calotas foram então reforçadas, com discos internos de enrijecimento. Sabia-se, porém, que com 8mm estava-se atingindo o limite das possibilidades de um arame. Era necessário formar cabos mais possantes, porém a configuração das ancoragens Rudloff tipo calota não permitia mais de 12 fios, pois ensaios feitos com 16 e 18 arames não tiveram êxito. A invenção da cordoalha rompeu o impasse da insuficiência dos arames ao progresso do protendido.

O uso da ancoragem de calota perdurou até o fim da década de 60, quando Rudloff iniciou uma série de experiências, com cordoalhas, na busca de uma solução para a sua fixação. Após muitas tentativas infrutíferas, chegou à conclusão que a única solução possível seria a de uma cunha tronco cônica bi-partida ou tri-partida, abraçando a cordoalha em todo o seu perímetro, solução adotada em vários lugares do mundo. Em 1973, Rudloff iniciou os ensaios das cunhas bi-partidas e após estudar 30 modelos diferentes, chegou a um resultado satisfatório.

Além de encontrar uma ancoragem apropriada e segura, para a sobrevivência do sistema era necessário também executar a protensão, o que exigia macacos potentes e bombas injetoras de grande capacidade. Enquanto na Europa, isto era feito por equipes especializadas nas grandes firmas e com facilidades tecnológicas, no Brasil Rudloff precisou resolver os problemas de projeto e execução sozinho, com ensaios de protótipos que demandaram três anos, até se chegar a um bom resultado. A injeção de calda de cimento dentro das bainhas também constituiu um grande problema, o qual demorou dois anos para ser resolvido, pois para enchimento ininterrupto da bainha, era necessária uma pressão continuada elevada.

O ensaio oficial das ancoragens de 12Ø1/2", em agosto de 1975, foi acompanhado por engenheiros do laboratório Falcão Bauer e do escritório de projetos Roberto Zuccolo, além da presença do eng. José Gam, da Themag, cujo conhecimento foi de grande valia para o resultado obtido.

O primeiro viaduto protendido com cabos de 12Ø1/2" foi em São José do Rio Preto, no final de 1975, com ancoragens de grande potência em cabos de 100m de comprimento.

Desde 1968, a VSL suíça atuava no Brasil, através da empresa então licenciada Engenharia Brasileira de Protensão (EBP). A VSL era detentora de sistema de protensão próprio, baseado no uso exclusivo de cordoalhas. Em 1972, esta incorporou a EBP e seus profissionais e passou a atuar independentemente até 1981. Sua tecnologia era altamente evoluída, porém, devido a dificuldades em seu estabelecimento no Brasil, resolveu retirar-se do país. Porém, para continuar atuando neste, ofereceu uma parceria à Rudloff, considerada qualificada para representá-la. Desta forma, em outubro de 1981 a VSL ingressou como sócia minoritária da Rudloff, a qual passou a chamar-se Rudloff-VSL Industrial Ltda.

A VSL foi pioneira no Brasil na aplicação de tecnologias variadas, entre as quais destacaram-se o uso das grandes unidades de protensão, em cabos com 19, 22 e 31 cordoalhas, a protensão em lajes com unidades pequenas, de 1, 2, e 4 cordoalhas, e o lançamento de pontes pelo processo dos segmentos empurrados. Através da parceria com a Rudloff, a VSL transmitiu a ela sua tecnologia, aumentando a área de atuação da Rudloff em novos mercados.

A parceria Rudloff-VSL foi de grande valia para as duas empresas, que puderam crescer e se desenvolver juntas no mercado brasileiro. Durou até 1990, quando a Rudloff adquiriu a parte da VSL na sociedade, tornando-se novamente independente, através da Rudloff Sistema de Protensão Ltda.

Devido à execução e projeto de seus próprios equipamentos e dispositivos para concreto protendido, a Rudloff adquiriu, com o passar dos anos, grande know-how na área de usinagem e hidráulica de altas pressões. Desta forma, em fevereiro de 1985, decidiu iniciar as atividades da sua divisão mecânica, passando a prestar serviços para terceiros na área de usinagem em tornos automáticos. Atualmente, a empresa tem capacidade de atender séries de usinagem de pequeno e grande porte, trabalhando com equipamentos próprios, entre os quais destacam-se centros de usinagem, tornos automáticos e tornos CNC.

Em 1986, a Rudloff estabeleceu uma parceria com a firma inglesa CCL-System Ltd., para fabricar luvas de pressão para emendas de barras de vergalhões de aço usados em concreto armado. Estudando a tecnologia de execução destas luvas, o eng. Rudloff projetou três tipos de prensas hidráulicas originais para três tipos de luvas, as quais vem sendo usadas com sucesso desde então.

No início de 1988, Rudloff foi consultado para participar da solução do problema existente no Shopping Center Paulista, em São Paulo.  Era necessário prolongar um prédio existente de três andares, mais três andares para baixo, porém com as lojas dos três andares superiores funcionando normalmente durante a operação. Rudloff criou uma solução prolongando para baixo os pilares existentes, apoiando-os temporariamente em camisas metálicas que, envolvendo o pilar, aderiam-se a ele por meio de uma calda de injeção, em pilares cujas cargas atingiam até 600 tf. A solução foi considerada um sucesso do ponto de vista de projeto e execução na engenharia nacional.

Após imensurável contribuição à engenharia nacional, o eng. Rudloff faleceu em 2009. A Rudloff porém continua desenvolvendo-se tecnicamente, através de seus profissionais e de consultores técnicos, entre os quais destaca-se o eng. Manfred Schmid (Curitiba), um dos ex-diretores da VSL no Brasil, especialista em concreto protendido.

Na atuação da Rudloff, diariamente convive-se com o resultado do árduo trabalho de seu fundador. Suas recomendações para o bom andamento de um sistema de protensão perduram até hoje, sendo fundamentais para manter a empresa em posição de destaque no cenário nacional da protensão. Como principais características básicas necessárias a um sistema completo de protensão, estabelecidas pelo eng. Rudloff, destacam-se as seguintes:

  • na fabricação dos cabos, as manipulações de cordoalhas devem ser reduzidas ao mínimo: apenas desenrolamento dos carretéis e corte no comprimento desejado;
  • deve ser fácil a enfiação dos cabos nas bainhas vazias (ou em furos de peças pré-moldadas a serem unidas pela protensão)
  • o cabo deve ter preferencialmente seção circular, com exceção dos cabos achatados para lajes, pela maior facilidade de sua fabricação;
  • deve existir um furo único de saída do cabo na peça concretada, sem ramificações e de forma simples;
  • o bloco de ancoragens deve possuir um furo de diâmetro maior do que a bainha com a forma de funil, para o desvio gradual das cordoalhas;
  • o bloco de ancoragem propriamente dito deve assentar-se diretamente sobre o furo de saída no concreto, o que facilita a enfiação ou colocação da ancoragem de emenda do cabo;
  • o furo de entrada para a injeção da calda deve ser posicionado de tal forma que a calda possa preencher totalmente a bainha, principalmente na zona imediatamente atrás da ancoragem;
  • é recomendável a possibilidade de troca de alguma cordoalha, no caso de ruptura acidental durante a operação de protensão;
  • o feixe completo de cordoalhas que formam um cabo deve ser protendido simultaneamente por um só macaco.
Além das obras já citadas, destacam-se no currículo da Rudloff mais de 2.000 obras de protensão, na quais estão incluídas usinas hidrelétricas, pistas de aeroportos, edifícios comerciais e residenciais, obras de arte especiais, tanques e reservatórios.  A Rudloff atualmente é fornecedora de produtos e serviços na áreas protensão de estruturas, usinagem mecânica, emendas para barras de aço e aparelhos de apoio metálicos. Porém, como resultado de um desenvolvimento contínuo através dos anos, a empresa adquiriu conhecimento para disponibilizar a seus clientes mais do que os produtos padronizados em sua linha de produção. A empresa apresenta-se capacitada para oferecer soluções diferenciadas à engenharia, para serviços especializados, entre os quais destacam-se:
  • pontes executadas por segmentos empurrados;
  • estruturas estaiadas pelo sistema VSL;
  • recuperação e reforço de estruturas com protensão;
  • movimentação de cargas pesadas.

Em cada área onde atua, a Rudloff tem a preocupação constante de oferecer aos clientes uma solução técnica e economicamente interessante, procurando ofertar à engenharia nacional e internacional produtos e serviços com qualidade e eficiência.

 


Site melhor visualizado em 1024 x 768px